Nada como ser como
- 3 de mar. de 2016
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'Molloy' não é um texto fácil, Beckett não é. Literatura para quem gosta da escrita, não só da história. 'Molloy' é a cor acinzentada do fora de foco intencional. Um narrador que muda sua distância, enevoando o personagem. O enredo que é um fluxo de pensamentos musicalizado, com cada expressão escolhida minuciosamente para ser uma poesia - centenas no mesmo livro.

'Molloy' é o mundo interior que começou a ser desvelado com Dostoievski, o início do mundo que leva o particular como universal. Que vê a relação de busca do filho pela mãe como o campo de batalhas de uma grande cruzada. Beckett faz da narrativa a lógica do pensamento, que nunca consegue ser domado, quando muito, seguido. Os fatos se interpõem como uma livre associação. Sem nenhuma arrogância ou elitismo voluntário, 'Molloy' não é para muitos. É preciso se entregar sem buscar a compreensão imediata, deixar-se aventurar e sentir para compreender o verdadeiro motivo do rumo aparentemente anárquico. Da existência que nasce da relação que é a mais simples, e que se complica, ao se colorir de fatos e memórias. Beckett é absolutamente influente na literatura brasileira contemporânea. Muitos tentam escrever como Beckett o fez, criando uma família, a mesma linhagem. Inúmeros romances de quase poesia, de quase linguagem, sem personagem ou enredo. Olhando em volta, sem nenhum julgamento de valor, percebemos: Beckett é, os outros parecem. Soa como se escrever como Beckett fizesse um autor ser inovador e moderno. Muitos de nós sabemos que somos um degrau, algo transitório rumando ao desconhecido. Outros fazemos como. Orgulho. Conseguimos. Somos capazes de. Becket foi e por isto continua sendo, muitos dos demais soam. Cópias piratas apaixonadas por si mesmas. Exercícios de estilo com preensão. Por isto Beckett continua, e marca. Nada como ser como se deseja.




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