Um mundo mais primitivo
- 6 de jun. de 2017
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'Desonra', de Coetzee em teoria é um livro de escrita seca e enredo linear, características que por algum tempo foram consideradas retrógradas. Longe deste conceito, Desgraça merece ser discutido com mais profundidade que com regras de interpretação pré-concebidas simplistas.

Aparentemente o tema central de 'Desonra' é o estupro. A história do professor David Lurie que tem um caso com uma de suas alunas, e demite-se da faculdade por causa deste suposto estupro. Em seguida vai para o interior morar com sua filha, e neste meio tempo a fazenda é invadida, ambos são agredidos e ela é estuprada.
Não é coincidência. Coetzee cria paralelo entre as duas situações. Na primeira
camada, discute o conceito de estupro. O primeiro parcialmente consentido, baseado numa relação desigual, de força (ele branco, da elite intelectual, mais velho e professor. O segundo, baseado em coerção física. A discussão esquenta no tema da definição de estupro, mas a polêmica só começa aí. Em outra camada, as duas violência sexuais apontam dois momentos na história da África do Sul. Coetzee parece usar o estupro como pretexto para discutir algo ainda maior.
Na verdade, percebemos em 'Desonra' a comparação entre dois períodos. O momento do apartheid, simbolizado pela intelectualidade branca, elaborada, sofisticada, impondo-se através de uma violência cultural. Um mundo que o próprio Coetzee lutou contra. Num segundo momento surge a violência pós-liberação, aquela carregada de esperança de dias melhores, mas que vem recheada de uma violência física, primitiva. A África do Sul é um dos países mais violentos do planeta, com maiores índices de estupro. Então trata-se de saudosismo da época da discriminação?
Seria fácil de pensar de forma maniqueísta, como tendemos a fazer em todo o pensamento político. Nós contra os outros. A favor versus contra. Direita versus contra. Quem dera tudo no mundo fosse simples assim. Poderia pensar em algo preconceituoso. Mas não é. Ao ler Coetzee você entende que a questão é maior que conceitos simplistas, assim como Submissão Houellebecq não deve ser lido como um saudosismo da cultura europeia conservadora. Ambos apontam para o ressurgimento de um mundo mais primitivo. A ditadura do desejo, do direito individual extremo e desconectado levaram o ser humano a ter como sua meta a realização de desejos e instintos básicos. Não há espaço para sublimação, para racionalização. Ou estamos satisfeitos, e nunca estamos, ou vem a

depressão, a revolta. A África do Sul de Coetzee como a França de Houellebecq são países sem um elo condutor, sem uma integração, dependentes da satisfação dos instintos individualistas mais primitivos. Começamos uma mudança com o coração, mas ela tomou seu rumo próprio.
É assim em 'As formas do vazio', de Carmen Da Poian. Em sua coletânea de textos, o narcisismo contemporâneo abordado é aterrador. Nesta sociedade que tem como maior entidade viva o capital e suas ramificações, o indivíduo se satisfaz sem a 'necessidade' da sociedade, restringe-se a um círculo e pequenas identidades. O vazio é preenchido com o consumo de itens de desejo mais imediato muda o ser humano. Ao invés de pulsões, vive de instintos. Não sublima mais. Ele quer a satisfação imediata, e para isto não elabora seus desejos. Somos uma sociedade que pende para o primitivo, para uma vivência física. Daí a penetração das drogas, de todo o consumo ligado ao corpo. O desprezo pelo intelectual. E, no caso de Coetzee, uma sociedade que não só expõe a injustiça centenária do apartheid, ainda não resolvida. Mas um ser humano liberado de 'amarras', que estupra e agride fisicamente, para depois ser perdoado como se a violência fosse um fato natural.
A violência da Africa do Sul é a mesma do Brasil, do Mexico. Locais onde a estruturação da sociedade e do estado são ainda menos preparados para lidar com o primitivismo. A sociedade se baseia em princípios instintuais, na posse, no territorialismo. Na voz do mais forte. Coetzee como Houellebecq não é conservador. O francês carrega o estigma, mas uma leitura mais detalhada mostra que não está alinhado. Está insatisfeito. É pessimista. Coetzee fala dos animais, vítimas de uma humanidade que lhe parece ainda mais irracional que as feras. Os animais são vítimas da crueldade humana. Não é à toa que hoje Coetzee é defensor dos animais, um ato antes de tudo literário.
Todos estes aspectos recheiam 'Desonra', um livro aparentemente linear. Repleto de camadas de interpretação. Estas camadas , a linguagem que está além das palavras mostram que uma estrutura de prosa linear está longe de ser retrógrada ou acomodada. E muito menos primitiva.




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